Coluna da Leila - E se eu fosse você – ou você fosse eu?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Maiteí, índios
Com vocês, Leila Krüger



 Tem um filme bem legal e engraçado de que me lembro agora: “E se eu fosse você” (tem “E se eu fosse você 2” também, seguindo o tema do primeiro), com magistrais atuações dos ícones Tony Ramos e Glória Pires. Eles são um casal em crise. Uma família inteira, pais e filha, de pernas para o ar, ninguém se entende nem faz questão de entender. Um belo dia ela (Helena) acorda no corpo dele (Cláudio) e vice-versa, quer dizer, a consciência, a alma, o interior de um no invólucro físico do outro. Uma confusão! E aí o que acontece? Cada um começa a entender, aos trancos e barrancos, um pouco do que é ser quem o outro era e ter sua vida: ela o pai de família sem muito tempo para a família, o provedor incansável, o que só pensa em trabalho e é egoísta; ele a mãe esforçada e preocupada, principalmente com os filhos, mas distante do marido ríspido, e sobrecarregada como toda mãe/esposa pós-moderna. Cláudio passa a ter o corpo e a vida de Helena, e Helena passa a ter o corpo e a vida de Cláudio, e assim eles “se botam no lugar um do outro”. O que é bem difícil às vezes, fora das telas.


Às vezes você acha que alguém te feriu tanto, sem saber que o feriu mais ainda. Às vezes não consegue enxergar, simplesmente não pode vislumbrar o que falou ou fez de errado, pensando apenas no que o outro ousou fazer contra você, quer dizer, contra seu precioso orgulho de cristal tão frágil, que, convenhamos, já estava arranhado antes daquilo e você superestimou. Às vezes você só vê seu umbigo. Você, eu, nós, eles – todos nós temos essa tendência, EGOísmo, incompreensão, ver o outro com o olhar embaçado por preconceitos e traumas e superficialidade e sujeiras. Por isso é tão difícil se colocar no lugar do outro e compreender suas razões – nem sempre justificáveis, mas às vezes mais plausíveis do que imaginamos. Às vezes até, olhando bem, podemos passar de mocinhos a bandidos. E o outro, de bandido a mocinho. Se olharmos bem, é claro. Se olharmos com o olhar do outro. O que é bem difícil às vezes.

 E qual é o jeito certo de olhar? Como ser justo? Daí já é muito existencialismo. Não sei. Mas sei que o jeito certo é nunca olhar apenas com a lente de aumento – rachada – do nosso próprio ego. É tentar se colocar realmente no lugar do outro, é analisar as situações por diferentes ângulos, é assim se tornar uma pessoa mais madura e racional. Não é ser tolerante demais. Leniente. Trouxa, até. Antes, ser mais sábio, ponderado, humano. Calçar as sandálias do outro, experimentar a rugosidade delas, o quanto apertam e ferem. Às vezes é bom fazer isso. Principalmente quando envolve uma pessoa muito importante para você.

 Às vezes você nem imagina a dor que fez o outro sentir. O quanto suas palavras maceraram um coração. O quanto você foi cruel. Agiu exatamente do jeito que não gostaria que tivessem agido com você. Foi tão vil quanto a pessoa que julga ter sido vil com você. Às vezes pode acontecer.


 Não é inocentar culpados. Perder o amor-próprio. Não; apenas pensar um pouco. Colocar-se no lugar do outro. Sair da casca dura do eu, ver além, refletir ao menos. Você não sabe o que há dentro da outra pessoa. Não sabe as faces de seus demônios – e eles dos seus. E se você fosse eu? Não o eu que de longe se vê, mas o mais íntimo com todas as suas histórias e medos e vulnerabilidades. Ah, você nem sabe quantas são. Mas talvez vislumbrasse se tentasse. Se não olhasse tanto para você mesmo, como se apenas você tivesse um coração partido.

 Glória Pires e Tony Ramos entenderam, do jeito mais difícil. Que é literalmente morar no outro, ter a sua vida. Só que isso não costuma acontecer na “vida real”. O jeito é tentar ser mais compreensivo – no ponto certo, não demais, é claro – e quem sabe mudar julgamentos. Aceitar diferentes pontos de vista, diferentes vidas. E que o mundo não gira ao redor do seu precioso umbigo de ouro. O brilho dourado às vezes cega.

Entender a dor de um ser humano – eis aí uma missão muito bela e difícil.

Mas eu prometo, vou tentar. Meu ego não vai gostar. Ele é um Shrek, um ogro verde que grita e quer sempre brigar. Mas eu vou tentar mesmo assim, tentar ver que nem tudo é como eu vejo, como sempre vi, como quero, como até faço questão de que seja. Um belo exercício de humanidade. Em um mundo tão desumano. Em que é quase sempre imperativo ter razão. Mesmo não tendo tanta assim. 

Viva o que o outro viveu ou vive e você entenderá. Passe pelo que ele passou ou passa. Seja quem ele foi, ou é. Não sendo possível, apenas imagine como deve ser. Mas imagine com carinho. Cuidado. Sinceridade.

Colocar-se no lugar do outro, e assim ter novas visões das situações e das pessoas, especialmente das que você ama, é uma das coisas mais difíceis do mundo. E também uma das mais importantes. Isso se chama liberdade. Isso se chama amor. O verdadeiro amor que compreende. Às vezes há muito o que compreender. Pense nisso. Pense.

Leila Krüger - Sou romancista, poeta e contista. Tenho obras em jornais, revistas, antologias e portais na Internet. Publiquei Reencontro, meu primeiro livro, pela Editora Novo Século em 2011. Em 2012 publiquei o livro de poemas A Queda da Bastilha e, em 2014, o livro de crônicas Coração em Chamas. Já recebi prêmios nos gêneros conto e poesia. E agora venho com esta coluna aqui no  Tribo do Livro, de alma limpa e coração nu. Facebook: www.facebook.com/leilakrugeroficial Twitter: @Leilakruger Instagram: @Leilakruger - Colunista

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