Coluna da Leila - Antes do Fim

sexta-feira, 6 de março de 2015

Maiteí, índios
Mais uma crônica da querida Leila Krüger. Confira.

 A cena é antológica: os vivos diante da morte. A vida diante do fim.

 Esta é a foto do enterro de um ex-integrante da banda Legião Urbana, Renato Rocha. O filho do Renato Russo (à direita) – que já perdeu o pai – está lá. As expressões são de desolação. A morte. O fim. A impotência diante da iminência.

 Apenas uma foto, mas que me remeteu a uma reflexão um tanto clichê, é verdade, porém nunca esgotada: não importa o que sejamos em vida, todos nós um dia perderemos cruelmente para a morte. Um dia ela roubará nosso corpo, nos vencerá.

 Há diferentes teorias sobre o que acontece após a morte. Muitos alegam que a vida continua após o corpo dar o último suspiro; mas o fato é que ninguém sabe exatamente como é essa escuridão tão distante e ao mesmo tempo próxima – a morte. Embora alguns até jurem que já voltaram de lá. Mas uma coisa é certa: quando um corpo humano morre, uma pessoa única vai embora do mundo para sempre, com seu nome, suas circunstâncias, seus toques e olhares, sua vida terrena.

Não é um discurso depressivo, nostálgico, não é essa a intenção. Para mim essa conversa tem um sentido maior: vamos viver, realmente viver enquanto houver vida, sonhos, coisas a descobrir, amor a amar, perdão a perdoar, mesmo lágrimas a chorar. Antes de nosso coração dar a última batida e cessar para sempre, antes de se fechar nosso livro (ao menos um capítulo dele), antes de virarmos uma lápide, um objeto de saudade perene (espera-se), vamos perder o medo de viver porque a vida é curta, por mais longa que seja, e nem sempre teremos duas vezes a mesma oportunidade.

 Viemos sozinhos a este mundo e sozinhos iremos daqui. Na solidão nós sentiremos as coisas mais profundas, a dor e a delícia de nossa vida. Os outros podem até se alegrar por nós, ou chorar conosco, mas nossos sentimentos ficam mesmo dentro de nós. Engaiolados em nossa alma. Cuide bem da sua alma, ela é você.

  Infelizmente, a maioria das pessoas percebe tarde demais o quanto é importante viver; com os pés no chão, mas sem aquele medo que impede de ser feliz. Os fantasmas do passado, inúteis e terríveis, aquele rancor maléfico que vem de épocas remotas e tenta destruir nosso presente e nosso futuro, nossa alma. Os piores demônios, geralmente, são os que nós mesmos criamos em nós.


 Vamos realmente viver. Mas o que é isso? Eu acredito em buscar a felicidade sempre, seguindo nosso coração. O que não significa ser irresponsável, mas ousado, otimista, fiel a quem se é e não ao que os outros querem que sejamos. Pare de ouvir demais os outros – o que não significa não ouvir ninguém –, dê a última palavra sempre a você mesmo, lembre-se de que um dia Deus lhe deu a sua própria vida para que escolhesse como vivê-la. Ela é só sua, no fim das contas. Você nasceu, você vai morrer.

 Acredito que viver, no sentido pleno, seja poder amar e ser amado, veja, não há nada maior que o amor na existência humana. Estamos aqui para isso, o amor, esse ente inexplicável – e para que explicar algo tão mágico? –, e amando ser amados, e sendo amados, amar, um ciclo humano, demasiado humano de solidariedade, compaixão, de saber que, apesar da solidão que há em cada um de nós e que se expressa vorazmente na morte – morre-se só –, não estamos totalmente sozinhos. Além das pessoas importantes para nós, temos Deus, que nos ama embora esse mundo nos faça duvidar disso muitas vezes. Também temos nossos sonhos e tudo aquilo que nos faz felizes.

Afinal o que vai importar no fim é: “Fui atrás da minha felicidade?”.

 Antes de morrer, seja feliz. Antes de ir embora não apenas respire, enfrente o trânsito, pegue ônibus, táxis, cumpra com suas obrigações, veja mecanicamente os anos passarem, o corpo fraquejar, não se resuma a pensar que “antigamente era melhor”. Não faça apenas isso. Antes de ir faça seu próprio caminho de forma que, quando fechar os olhos pela última vez, tenha valido a pena um dia tê-los aberto.


Leila Krüger - Sou romancista, poeta e contista. Tenho poemas e contos em jornais, revistas e portais na Internet. Lancei Reencontro, meu primeiro livro pela Editora Novo Século. Já recebi prêmios de conto e poesia. E agora também escrevendo  esta coluna aqui no  Tribo do Livro que terá muitas coisas legais - Colunista

9 comentários :

  1. Gostei da escrita. Eu já fiz História e posso dizer que cada civilização, absorve a questão da morte de uma forma diferente. É incrível isso. Muto bom.
    Parabéns Leila.

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    Respostas
    1. Obrigada Denise! Se você curte História, acho que vai curtir meu novo romance que tô concluindo, ele fala muito sobre os mistérios da História, vida, morte e o mundo espiritual. Bjo!

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  2. Excelente crônica. Geralmente tenho essas mesmas reflexões de vez em quando. É inevitável não pensar e imaginar quando esse dia vai chegar, então faço o melhor que posso. Não digo nem que vivo cada dia como se fosse o último, mas aproveito tudo da melhor forma que posso fazer.

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  3. Oi Leila,

    Engraçado, acabo de ler seu texto e tenho a mesma sensação que tive ao assistir dias atrás uma reportagem do Jornalista Roberto Cabrini sobre esse mesmo tema: vida e morte.
    Na reportagem mostrou uma paciente jovem, 38 anos, em estado terminal num hospital de câncer. Fiquei muito tocada e emocionada com seu depoimento porque ela aceitava a morte de uma forma tão serena e tranquila... e a frase que ela mais repetia era "Bora ser Feliz!!"
    Então, depois de ver essa reportagem e lê seu texto, o sentimento que tenho é olhar a vida com leveza e aproveitá-la em seus mínimos detalhes.

    Obrigada pelas palavras!!!

    um enorme abraço

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  4. Leila eu tou fazendo 27 anos hoje e estou passando por aquela famosa crise dos 30 e tava perguntando exatamente isso, se eu apenas vivendo por viver ou se estou fazendo mais do que isso. Mais uma vez um texto seu me comove de maneira única. Obrigado por suas palavras, elas sempre me ajudam a refletir sobre diversas coisas.

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  5. Concordo com você, acho que devemos aproveitar ao máximo tudo o que pudermos dessa vida, pra no futuro não ficarmos cheios de ressentimentos por não termos feito tantas coisas que tivemos chance.
    Pois quando a morte chega, não tem mais o que se pode ser feito a não ser partir com ela.
    Bjokas!

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  6. depois de um momento de reflexao, é tento de rever os seus conceitos e o que estamos fazendo de nossas vidas, aproveitar tanta quanto pudermos, mar e respeita o proximo antes que seja tarde.

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  7. Sempre que vejo textos que me remete mais a reflexão faço uma analise do que li e do que posso absorver.

    Lendo seu texto pude analisar a minha vida (mais uma vez) e vejo como não tenho vivido do jeito que gostaria. E em grande parte pela minha covardia de arriscar e viver a vida. Sou muito apegada a seguranças antigas e novos desafios me dá medo confesso.

    Por isso, sei que é muito provavel que eu não siga muito do que você apontou, mais mesmo assim, o mesmo me fez pensar no se...


    Beijos

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  8. Se há algo que posso dizer é que sua escrita é fascinante, parabéns mesmo!
    Vida e morte são um tempo que geram discussão sempre e nos levam a pensar, concordo com tudo o que disse, temos que viver plenamente, não apenas agir mecanicamente, sorrir, chorar, amar, viajar, sentir aquele frio na barriga, as descobertas e buscar mesmo a felicidade sempre, junto daqueles que amamos, fazer nossa breve história valer a pena para nós primeiramente, afinal nunca sabemos quando iremos embora para sempre.

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