Coluna da Leila - Nossas Urgências

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Maiteí, índios

Vamos conhecer a escrita e Leila Krüger na crônica "Nossas Urgências". Confira !!!


Correndo pra lá e pra cá, resolvendo coisas sempre urgentes demais, e quando se vê já são seis horas – como disse o Quintana –, e quando se vê já é hora de (tentar) dormir (com uma agenda sendo escrita na cabeça), e não deu tempo, mais uma vez, de fazer aquilo que você queria, de ficar mais tempo com as pessoas que você mais aprecia, de diminuir um pouco o nível de estresse, ansiedade, preocupação.

Se o século XIX foi o do tédio, dos lânguidos corpos em profundas contemplações – atrás de xícaras de chá –, o XX foi o começo do que agora chamamos de “capitalismo selvagem”, um termo social depreciativo que fala sobre como vivemos em um sistema que não para, que não volta atrás, que não tem piedade. Longe de mim falar mal da tecnologia, que hoje nos dá tanta satisfação, saúde e torna as tarefas mais eficientes, mas o sistema em que vivemos atualmente de fato nos rouba, dente outras coisas, uma muito importante: o tempo.

Cada vez mais os pais apenas deixam suas crianças na escolinha, mal as veem, familiares às vezes nem se cruzam durante o dia, é trabalho cedo até bem tarde, é agora e não mais tarde, é fazer das tripas não só coração, mas rim, baço e pulmão, é ter que marcar hora para namorar ou paquerar, é cada vez menos sair com os amigos queridos, ou com menos amigos, é deixar de notar, muitas vezes, as coisas mais simples e belas do mundo – um pôr do sol, difícil de ver do engarrafamento neurótico do fim da tarde; um mar, um lago, um campo de flores, gente de todos os tipos, detalhes. Cada vez mais as pessoas correm, correm, correm como formigas, e no fim elas talvez estejam correndo de suas próprias vidas.

É até motivo de orgulho dizer que “não tem tempo”, que afinal é uma dessas pessoas úteis e bem-sucedidas do mundo atual, que “não fica batendo perna por aí”, que “tem mais com o que se preocupar”, mas até que ponto estamos sacrificando as coisas que realmente importam e que nos fazem mais bem, pelas que são “urgentes” e “inadiáveis”? Eu sei, existem mesmo coisas urgentes e inadiáveis. Mas, até que ponto?

E quando se vê já são seis horas, já são sessenta anos, o relógio já começa a falhar. O que você vai lembrar não serão os dias em que conseguiu fazer aquele trabalho extra, surpreender seu chefe, execrar-se para cumprir todas as suas metas – e que haja mesmo sacrifício, mas sem prejudicar (muito) a si mesmo; não, o que você vai lembrar serão os bons momentos com aqueles que você ama, as boas conversas, os abraços, os beijos, o lazer, as viagens, os lugares novos, os velhos lugares de sempre que preenchem a alma.

Não deixe nunca o tempo engolir, como um dragão feroz que é, as melhores pessoas e as melhores coisas da sua vida. Você nunca sabe quando ele dará a “dentada” derradeira, quando te roubará, de uma vez por todas, seu tempo para viver. Reavalie suas prioridades. Nem tudo é para agora, para ontem. Amar, sorrir e se divertir são sempre as mais urgentes de todas as nossas necessidades. São as coisas que nos fazem viver de verdade. 
Bj,
Leila

 Leila Krüger - Sou romancista, poeta e contista. Tenho poemas e contos em jornais, revistas e portais na Internet. Lancei Reencontro, meu primeiro livro pela Editora Novo Século. Já recebi prêmios de conto e poesia. E agora também escrevendo  esta coluna aqui no  Tribo do Livro que terá muitas coisas legais - Colunista

9 comentários :

  1. Adorei o texto,o nosso tempo passa cada vez mais rápido e parece que temos a obrigação de preencher cada minutinho dele com mil atividades,isso oprime demais,como queria ter nascido no lânguido século XIX,como você mesmo escreveu acima....

    Linda estréia....

    bjsss

    Apaixonadas por Livros

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  2. Seu texto é um registro de como perdemos tempo sobrevivendo, sim, sobrevivendo porque viver que é bom? Que nada! Deixa pra amanhã...
    E esse é o problema, não vivemos o hoje e quando vivemos não desfrutamos do dia em sua plenitude. Somos reticentes, medrosos até. Não percebemos que a vida passa e que não é culpa do tal do tempo ou da falta dele. Nós é que complicamos tudo, queremos demais, sonhamos demais...

    E quando chega em determinados momentos da vida, percebemos que poderíamos ter feito algo, que poderiamos ter feito diferente. O se é o que prevalesse... E o arrependimento é o que fica!

    Vento Literário

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  3. ADOREI!
    Realmente as melhores coisas para se viver são amar, sorrir, se divertir. Adorei como você definiu o tempo, e se pararmos para analisar ele é realmente um dragão feroz. Hoje em dia estamos tão atarefados com tudo que não paramos pra ver as coisas pequenas, mas bem mais importantes na nossa vida.

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    Respostas
    1. É bom demais né Thainá, amar, sorrir e se divertir. Tudo o que precisamos,

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  4. Nossa, amei esse texto. A sua definição de tempo foi fantástica. Nesse mundo corrido, onde mais parecemos baratas tontas sem saber para onde ir, acabamos esquecendo que os pequenos detalhes são cruciais e podem fazer toda a diferença na vida. Muito lindo.

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  5. Este livro, Nossas Urgências, fez meu estilo, sem duvida, o jeito da autora escrever, suas palavras, amei sua escrita. Ta na minha listinha com certeza.

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  6. Olá,

    Leila, concordo plenamente quando você coloca: "... o sistema em que vivemos atualmente de fato nos rouba, dente outras coisas, uma muito importante: o tempo."

    De repente ficar um dia sem tecnologias vira um tormento, um stress, um martírio!! Como pode uma sociedade (e eu me incluo) ficar tão dependente e certas coisas e deixar de realizar e admirar outras....

    A vida é uma eterna correria!!! Infelizmente!!!

    Realmente, devemos desacelerar e procurar valorizar o simples, os pequenos detalhes... antes que o tempo nos engula!

    Adorei seu texto!!!! Parabéns!!

    Um forte abraço

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  7. Oiee.
    Realmente, hoje com a correria do dia-a-dia deixamos de dar a devida atenção a quem realmente importa.
    Quando vemos o dia passou e não ligamos ou fomos visitar, e fica aquela sensação de que sempre deixamos de fazer algo.
    Olha só, até ontem era ano novo e quando piscamos, já passamos do carnaval, ta tudo muito rápido e com isso não conseguimos aproveitar o nosso tempo, porque fica sempre aquela coisa, estudar, trabalhar, dormir...
    Se pararmos pra pensar percebemos que estamos deixando muito coisa de lado por conta disso.

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  8. Estive pensando sobre isso algum tempo atrás, como nos preocupamos com o trabalho durante todo o dia e até em casa, não conseguimos nos desligar de fato, estamos correndo em círculos, sobrevivendo em meio a trânsito, horas extras, adiamento de compromissos, estresse, deixamos de viver a vida realmente, temos que aprender a valorizar as pequenas coisas, momentos e principalmente as pessoas, excelente texto que nos leva a refletir e rever nossas prioridades.

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