Ensaio sobre a Sociedade em Jogos Vorazes

terça-feira, 1 de maio de 2012


Aristóteles afirma que a comunidade constituída a partir de vários povoados é a cidade perfeita, pois há uma formação da polis (cidade) capaz de estabelecer o exercício da política. No âmbito político, o homem só é completamente homem quando é capaz de exercer suas potencialidades, pois para Aristóteles, a política se relaciona com a ação, com o homem que participa ativamente de sua comunidade, o homem sendo naturalmente um animal político - participativo.

Na obra Jogos Vorazes, da autora americana Suzanne Collins, os povoados chamados de “Distritos”, havendo 12 distritos, formariam uma cidade perfeita para Aristóteles. Cada distrito desenvolveria sua potencialidade (seja pesca, pecuária, mineração, etc..) e os homens trabalhariam ativamente para trocar entre si o que fazem de melhor e assim formar uma cidade justa, completa e rica. Porém não é isso que encontramos na leitura da obra.

A humanidade do homem se realiza na experiência política, na cidadania, na participação da vida pública, na participação das decisões, etc.. Ser cidadão é atuar, agir politicamente, não é apenas ter direitos e votos. A política tem um valor em si mesma, não serve para satisfazer nenhuma necessidade no âmbito pré-político; ela representa um estado de felicidade. Hoje quando falamos de felicidade atribuímos características particulares, uma felicidade psicológica; para Aristóteles a felicidade é algo compartilhado (está associada a ideia de pluralidade; trocas discursivas com a experiência da fala). A plena realização de nossas potencialidades e não alguma coisa simplesmente da ordem do prazer.



Para os moradores destes 12 distritos o homem não podia se manifestar politicamente e deveria aceitar todas as ordens da capital, chamada de Panem. Não se realizando politicamente o homem não se sente cidadão, não participa das decisões, é passivo dos poderosos e não se sente feliz. Não havendo a felicidade do distrito como um todo, não existe felicidade particular, não é plena, logo todos acabam sofrendo. O prazer não está no âmbito pessoal de cada família, mas constitui a felicidade do distrito. Aqui não lemos prazer como algo da carne ou momentâneo, é algo do espírito e duradouro. A capital Panem representa uma unidade de controle e imposição perante os distritos. Não existe uma preocupação com o bem estar geral, apenas particular.

Panem provavelmente foi inspirado no Panoptismo (dispositivo panóptico), descrito por Michel Foucault em Vigiar e Punir; O dispositivo é uma ‘máquina’, o panopticum, idealizada por Bentham no século XVIII, formada por uma torre central e uma construção circular periférica. Nesta se encontram indivíduos a serem vigiados – prisioneiros, loucos, trabalhadores, isolados em células, formando “uma coleção de individualidades separadas”. A capital Panem, metaforicamente considerando, representa o próprio dispositivo de vigilância, estabelendo a conduta correta dos distritos, oferecendo edificações de comando e domínio (como o Edifício da Justiça - onde ocorria o sorteio dos tributos e representava um marco sólido da capital). Não existia lugar algum onde a capital não exercesse vigilância.

A protagonista Katniss Everdeen se destaca no distrito 12. Neste distrito a fome prevalecia para grande parte da população (assim como nos outros distritos – somente a capital era privilegiada) e para salvar sua família ela desenvolve suas habilidades de caça. Desenvolver esta potencialidade é para Aristóteles uma forma de resposta a esta sociedade tirânica, é uma tentativa de mudança contra a falta de atividade politica. Lembrando que a política é participar ativamente das decisões do povo e da vontade do povo.

Na política de Aristóteles, a polis depende que as esferas das necessidades estejam satisfeitas (deve haver comida, condições de higiene, segurança, saúde, transporte, etc..), são pré-condições para que se haja possibilidade do desenvolvimento da política e da sociedade. As necessidades dos distritos não estavam sendo satisfeitas pela capital, a situação era de um completo abandono e ainda deveriam se submeter a pressão psicológica dos Jogos Vorazes. Com tantos problemas nas esferas das necessidades, não existia a menor condição favorável para o desenvolvimento dos povos.

Os Jogos Vorazes era uma forma de estabelecer controle da capital contra os 12 distritos. Em cada ano duas crianças/adolescentes de cada distrito serviam como tributo – através de um sorteio – para um jogo sangrento, os Jogos Vorazes. Nesta diversão macabra apenas um jovem de um distrito poderia sair vitorioso e com vida, o restante estariam todos mortos. Estes jogos eram um grande espetáculo para a capital Panem, lembrando os jogos realizados no Coliseu de Roma, onde a morte representa o grande espetáculo. A grande diferença é que estes jogos serviam para lembrar da força e poder da capital e lembrar a época em que o 13º distrito se rebelou contra a tirania imposta pelos poderosos, sendo posteriormente dizimada.

A primeira lei da natureza, para Thomas Hobbes, determina "que todo homem deve esforçar-se pela paz, na medida que tenha esperança de consegui-la, e caso não a consiga pode procurar e usar todas as ajudas e vantagens da guerra"; consiste na obrigação e esforço pela paz como recurso de garantia de vida, ou seja, o homem não pode ficar em estado de guerra, pois o único fim é a própria destruição e extinção. Porém, se assim não a conseguir, o homem pode procurar todos os meios possíveis para lhe assegurar a vida (mesmo utilizando-se da violência).

Os participantes dos Jogos Vorazes servem como personificação para esta primeira lei da natureza. Mesmo se algum jovem tributo tivesse o desejo de instaurar a paz neste ambiente de massacre e domínio, o mesmo não obteria sucesso, pois perdiam a esperança assim que entravam na arena dos Jogos Vorazes. Após desistir do estado de paz, o único pensamento plausível é de assegurar a própria vida, cedendo ao uso da violência e aderindo ao estado de guerra, mesmo sabendo que o estado de guerra tem como fim a própria destruição, ou seja, o grande risco de todos saírem mortos (o que realmente acontecia, já que apenas um tributo sairia com vida).

A segunda lei relaciona-se com o direito de natureza: "por todos os meios que pudermos, defendermo-nos a nós mesmos" servirá como um freio para a primeira lei da natureza, ela estabelecerá um limite no que diz respeito ao de apenas me limitar se todos se limitarem, ou seja, eu abro a mão de meus direitos para instaurar uma situação de paz, se todos assim o fizerem. O homem terá que descobrir uma forma de assegurar a aceitação do outro, como cita Hobbes “não há lei sem espada”.

Esta situação fica bem clara na arena de combate dos Jogo Vorazes. Como ninguém estabelece um limite no que diz respeito a preservação da vida, todos são obrigados a participarem da chacina. Não há acordos. O homem apenas cede com o estado de guerra se assim todos o cederem. Não existe a ideia de paz relativa ou guerra relativa, ou existe para todos ou não existe. O que Panem mais teme é uma possível rebelião dos distritos. O estado de guerra também é uma posição consolidada pela união dos povos, por este motivo nenhum distrito tinha contato com o outro.

Segundo Hobbes, para romper com este estado de natureza, o homem deve abrir mão de parte de sua liberdade, para superar este estado de conflito. Para superar este estado de natureza, Hobbes afirma que há duas possibilidades: pela paixão, quando o homem constrói seus pertences pelo trabalho, quando procura por uma vida confortável e quando teme a morte violenta; e também pela razão que sugere as normas (os acordos resultam as leis).

Com medo da morte violenta e com a busca de uma sociedade com uma vida digna e confortável, que em um momento ou outro os distritos iriam se rebelar. Por mais que a sociedade esteja sofrendo um momento de guerra, a busca por um futuro melhor e o medo, acabam dando forças para que haja mudanças. Seria um pensamento deveras ingênuo acreditar que um regime totalitário se propagaria por muito mais tempo. É impontante destacar que o estado de guerra é um extermínio total das nações, tanto para o poder central como que para as classes minoritárias, todos acabam sofrendo as consequências da falta de paz.

Para superar o estado de natureza (estado de guerra), Hobbes cria a figura do Leviatã, no qual será o centro do governo, aquele que detém o monopólio da violência. A política somente aconteceria depois que as desigualdades sociais acabassem (existem problemas no âmbito pré-político a serem resolvidos). A sociedade civil é instaurada para resolver estes problemas de desigualdade e violência. O Leviatã protege a liberdade, a liberdade de não haver impedimentos e o Estado concentra a força para que os cidadãos façam suas atividades pré-políticas.

A figura do Leviatã não existe na sociedade criada por Collins. A capital apenas utiliza-se da violência para fins próprios, não para o bem geral e para assegurar a vida dos civis. A violência assume um papel de repressão, de espetáculo social e manipulação de uma sociedade marginalizada. É importante marcar que o Leviatã utiliza-se sim da violência, porém ele é um centralizador do poder escolhido pela própria sociedade para que garanta a liberdade. Panem é formada de uma minoria da elite que controla os outros 12 distritos, em nenhum momento a liberdade é posta em questão, pelo contrário, os Jogos Vorazes servem para mostrar um monopólio tirânico feito pela capital.




Bibliografia:

ARISTÓTELES. A Política. 1ª ed. São Paulo: Saraiva de Bolso, 2011.

COLLINS, Suzanne. Jogos Vorazes. 1ª ed. São Paulo: Rocco, 2010.

HOBBES, Thomas. Leviatã. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Artigo Do Panoptismo em Vigiar e Punir de Foucault
http://www.eca.usp.br/nucleos/filocom/existocom/artigo5c.html

3 comentários :

  1. Quero mtoooo os outros 2 livros =/
    to viciadoo rs

    ResponderExcluir
  2. Simplesmente adorei! Estava esperando há um bom tempo um olhar mais profundo e além de apenas uma sinopse. Lembro que quando li os livros, momentos marcantes da História vieram á minha cabeça a todo o momento, como por exemplo o Nazismo, que assimilei com a soberania do homem e seus padrões diante á um povo inocente. A lei de Lamarck também me veio imediatamente quando vi Katniss superando os seus medos e inseguranças para sobreviver, ela não sabia que tinha tamanha braveza, mas foi essencial ela adquirir isso. E a Lei de Darwin, obviamente, pois o mais apto sobrevive, e isso ficou claro no livro devido ás mortes que aconteceram na Arena.
    Gostei do livro exatamente por isso, não é algo superficial, é uma crítica a tudo que somos impostos e vivenciamos. Adorei a resenha, esta de parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Você salvou minha vida, meu trabalho, e minha nota!! Valeu mesmo!

    ResponderExcluir

A Tribo Participa

Get your own free Blogoversary button!

PUBLICIDADE


Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina.


Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina.

Tribo Apoia

Top Comentaristas

Widget by: Code Box

Clique