Alegoria da Caverna na Atualidade

terça-feira, 13 de dezembro de 2011


"Precisamos sair da confusão, do engano e de ilusões, uma vez que emergimos de uma caverna para encontrar a realidade."

Este é o sentido de uma das alegorias mais importantes da filosofia platônica, a alegoria da caverna, que é encontrada no Livro VII da República de Platão. Esta é uma alegoria e não um mito. Um mito é uma história simbólica, que retrata as forças da natureza. O mito escolhe uma voz poética para falar das origens e mistérios da vida. Uma alegoria é uma figura que continua por toda uma história, ou em uma tabela, de modo que cada elemento da história, ou da tabela, corresponde a um elemento que é simbolizado em um paralelismo constante. Na pintura, a alegoria é refletida em um desejo de colocar intencionalmente elementos da matriz, seguindo uma espécie de código para ser decifrado, se sabe a intenção do pintor. A alegoria da caverna, como Platão fez, tenta definir uma cena onde todos os elementos da história tem um significado simbólico. Além disso, a imagem que ele apresenta não é estática, a figura é dinâmica. 

A história nos coloca dentro de uma caverna, onde existem homens acorrentados. Eles são submetidos a uma existência na escuridão, onde apenas podem enxergar suas sombras refletidas nas paredes da caverna. Estes prisioneiros não conhecem nada que não sejam os elementos presentes na caverna, entendem suas sombras como geradas por um fogo, uma luz, algo brilhante que vem de fora, de uma pequena entrada. O que aconteceria se algum destes homens saisse da caverna? Esses homens são acorrentados em fusão de correntes com a alma humana, que é ligada a um corpo terrestre, pertencendo ao mundo das coisas e, portanto, imperfeito, sensível, cujas habilidades são apenas sombras da realidade. Não são tangíveis em nível imediato, apenas imaginados e incompreendidos no âmbito da vivência corpórea adquirida.


- Por que uma caverna e não a superfície? 

 A condição humana reflete o seu estado de ignorância. O homem por vezes sente receio em sair de sua “caverna” pessoal e se deparar com uma realidade por vezes desconhecida, por vezes questionada. O esclarecimento também reserva um espaço de sofrimento, quanto mais se tem noção da realidade mais o homem tem medo dela e prefere ficar enclausurado nas paredes de sua caverna. A caverna continha uma figura de vida, no entanto, uma abertura para a luz exterior reflete o medo e a incerteza de algo melhor, denso e concreto. Isto significa que a mente, que é inicialmente bloqueada, pode sair, mas não significa que o homem assim o queira. O homem não está condenado à ignorância, pode libertar-se, equivale a uma vida mais livre e esclarecida. 

Essa luz que os prisioneiros enxergam, na verdade, vêm por detrás deles. Platão, intencionalmente, mostra que basicamente a nossa vida material é vivida sob uma luz artificial que não é a verdade. Este é o brilho da sedução das aparências, que nos engana tão facilmente, é chamativa. Ela brilha, mas sob uma luz falsa. Isto se refere à aparência brilhante da artificialidade do mundo em que vivemos, os falsos valores que temos e talvez o que nos sujeitamos para continuar vivendo dessa forma arredia e decerto impensada. 

Mas quem são esses homens no escuro? Entre os prisioneiros e o fogo por trás deles está uma parede. É como se estivessem sendo escorados em suas próprias almas, como se tivéssemos instalado um fantoche nas costas destes homens, onde seus únicos companheiros são as sombras. Para aumentar o efeito dramático da realidade das sombras que passam, há sons ecoando no fundo da caverna, como se viessem de suas próprias sombras. Podendo falar ou ficar caladas. 

Os prisioneiros acorrentados nunca viram nada além de sombras na parede. Elas fornecem consolo, mas no fundo são eles próprios. Na atualidade nos deparamos com a mesma situação, esperamos enxergar no “exterior”, na “superfície”, algo que percente a nós mesmos e que está dentro de nós; seja companhia, seja a noção de uma verdade, de algo concreto a ouvir ou a ser escutado. O que temos hoje como “televisão” e filmes, nada mais é do que nós mesmos refletidos nas mais diversas situações; são nossos sonhos mais profundos projetados em aventuras fantásticas, imaginárias e fictícias; ou nos maiores dramas que nos fazem pensar sobre nossas próprias vidas. 

Estes homens falam, vivem em um mundo artificial e escuro. Este é o mundo sensível, o mundo é, na medida em que a mente é presa, ilusória e até estruturada de uma dupla ilusão. Agora, este retrato da condição humana não é fixo. Suponha-se que entre os presos, há um homem inteligente que se atreve a abalar a visão do que concebe como real, pôr em causa apenas o que se repete por hábito. Isso seria como se libertasse as correntes do pescoço do prisioneiro, ele tinha os olhos fixos na parede, assombrado pela visão de sombras. Seus pensamentos eram perdidos nas imagens. Mas um homem vem falar com ele e o puxa do seu entorpecimento.

E se tudo que ele acreditava não passasse de ilusão? A vida dele continuaria a fazer sentido? Esta é a grande questão da atualidade. Até que ponto aguentamos desestruturar nossas bases de vida e pensamento? A tecnologia e a ciência vêm desafiando esta condição diariamente, até que chegamos ao ponto de não querer mais acompanhar. Sentimo-nos frágeis no meio de tanta coisa nova, por vezes não sabemos o que fazer, não sabemos como nos atualizar. A melhor saída para a atualidade é se trancar em casa e fingir que não existe nada exterior a nossas paredes. Não somos tão diferentes desses homens na caverna, temos medo do que há de vir, do que esperar do futuro. 

Platão, propõe em sua metáfora, um processo de aquisição da consciência, isto significa a apreensão de dois sentidos: o sentido das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e o sentido das ideias (dianóia e nóesis). Platão entende a realidade como estando presente no mundo das ideias – um mundo verdadeiro e real – e a grande parte dos homens vivem em uma condição de extrema ignorância (eikasia), sendo mutáveis, não são entes perfeitos como no mundo das ideias, logo, não são bons suficientes para criar um conhecimento perfeito.

Platão não tinha a intenção de buscar as essências verdadeiras na Phýsis (natureza), como Demócrito fazia. Com a influência de Sócrates,  Platão buscava encontrar a “essência” das coisas, que ultrapassasse o mundo sensível. 

Se por algum acaso um atreve-se a romper com algum elo da corrente, este automaticamente gera mais cem elos, sempre na expectativa de manter corrompida a alma humana como intelecto e necessidade de adquirir experiências válidas. Fora este intento, os que não conseguem romper, sempre se consideram mais fortes, resolvendo como hábito de vida a superficialidade do que vivem e do que conseguem transformar em segurança. Dos que rompem, fica a desesperança inicial de uma queda, uma desestrutura do que considerava palpável, sempre se tornando alvo-mártir da maioria inconsolada.

O que se mostra com mais frequência, é a facilidade que o homem tem para se manter aprisionado por fatores mais surreais do que concretos, sua intensa manipulação do paradoxo livre-arbítrio para que seja considerado seguro. O homem é feito para ousar, mas poucos o fazem, seja por imposição, seja por sobrevivência. Muito se adquire com a forma empírica, mas pouco se atribui à pessoalidade causada por estas mesmas experiências. É como se o certo fosse seguir uma multidão cega e surda, enquanto o transgressor precisa ser punido, uma caça às bruxas pela autoridade da intelectualidade pessoal. Não há um conceito de se apoiar a desmistificação de atos pequenos. Opta-se por continuar numa obscuridade imposta, mas diferindo da inanição por que agora os homens sabem que são sombras. Sabem que são ilusórias e sabem que as seguem, porém não se distanciam. 

Platão tenta evidenciar o discernimento necessário do que é o conhecimento herdado, adquirido e buscado, que é o essencial para nossa existência. Baseando-se na alegoria, estipula uma linha a ser transpassada, além do que é real e ilusório, intrinsecamente fundado, e capaz de eleger uma educação. Mostra o que é a aceitação e falta de estímulo, reverberando para uma existência sombria a nível intelectual e por própria vontade. A alegoria serve exatamente para isto, reforçar a ideia da busca e da não concepção automática de preceitos comuns.



Referências:
AZEVEDO, Ana Vicentini de. Mito e Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2004.
PAVIANI, Jayme. Platão e a República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
PURSHOUSE, Luke. A República de Platão. São Paulo: Paulus, 2010.
REALE, Giovanni. Platão. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

2 comentários :

  1. Oi!!!
    Já li sobre a alegoria da caverna! E muito legal a filosofia que ela trás.
    Um Super Beijo*

    http://luahmelo.blogspot.com

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  2. Sou da terra do Jayme Paviani e fã deste professor. Condensei as idéias do seu texto neste link - http://ordemdosfantasmas.blogspot.com.br/2015/06/alegoria-da-caverna.html

    Se não aprovar, entre em contato!

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