De Fantásticos a Fantástico: Passeios pela ficção do Insólito

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Preâmbulo

Sob pontos de vista mais contemporâneos dos estudos literários, em perspectiva comparatista, podemos refletir acerca do Fantástico tanto no singular quanto no plural, dependendo da orientação crítica que adotarmos, mas, em qualquer dos casos, independentemente da escolha que fizermos, serão sempre obrigatórios nossos passeios pela ficção do insólito, já que se trata de uma categoria/característica tão essencial ao gênero – na acepção todoroviana (TODOROV, 1970) – ou ao modo discursivo – nas acepções de Irène Bessière (2001) ou Remo Cesarani (1996) – quanto a categoria do real, sobre o qual a narrativa fantástica, em sentido lato, se erige parasitariamente, tendo-o por pano de fundo inevitável.

Como observa Irène Bessière, no universo do Maravilhoso, as manifestações extra(/sobre)naturais, ou extraordinárias parecem menos estranhas e insólitas às personagens e, consequentemente, ao leitor (2001, p. 91) do que no Fantástico, advertindo que a narrativa fantástica surge a partir do conto maravilhoso, cuja marca sobrenatural e interrogação sobre a natureza do acontecimento insólito conserva (2001, p. 93). Assim, por exemplo, A Demanda do Santo Graal, invocada por Jacques Le Goff (1990) para apresentar aspectos do Maravilhoso medieval, mescla interferências do paganismo celta ao ideário cristão da busca, com o mágico e o insólito contribuindo no desenvolvimento da trama narrativa, sem gerar questionamentos por parte de narrador, personagens ou, consequentemente, leitor. Diferentemente de como ocorre no Maravilhoso, no universo do Fantástico, segundo assevera Todorov (1970), à presença do estranho, do sobrenatural, do insólito corresponde um questionamento homólogo de suas causas, tanto por parte do narrador e/ou das personagens, quanto por parte do leitor/ o que contamina/dirige a leitura interpretativa do leitor, implicando oscilações entre aceitar uma explicação com bases em "leis" conhecidas e convencionadas pelo senso comum, e a interferência de outras "leis" não pertencentes ao universo natural e ordinário. Irlemar Chiampi, ao problematizar o universo do Realismo Maravilhoso comparativamente com o do Fantástico, afirma que:

  Ao contrário da "poética da incerteza", calculada para obter o estranhamento do leitor, o realismo maravilhoso desaloja qualquer efeito emotivo de calafrio, medo ou terror sobre o evento insólito. No seu lugar, coloca o encantamento como um efeito discursivo pertinente à interpretação não-antitética dos componentes diegéticos. O insólito, em óptica (sic)racional, deixa de ser o "outro lado", o desconhecido, para incorporar-se ao real: a maravilha é(está) (n)a realidade. Os objetos, seres ou eventos que no fantástico exigem a projeção lúdica de suas probabilidades externas e inatingíveis de explicação, são no realismo maravilhoso destituídos de mistério, não duvidosos quanto ao universo de sentido a que pertencem. Isto é, possuem probabilidade interna, têm causalidade no próprio âmbito da diégese e não apelam, portanto, à atividade de deciframento do leitor. (1980, p. 59)

Ao focalizar desde a literatura fantástica do Século XIX até a contemporânea, Irène Bessière observa que o discurso fantástico deixa um amplo espaço ao insolúvel e ao insólito, onde a ilusão e a "irrealidade" possíveis aparecem como meios de atenuar o artifício de relatos em que o insólito absoluto é resultado da criação humana, ou seja, da ficção (2001, p. 89-90) Em sua ótica, na Modernidade, o insólito exporia a debilidade do indivíduo autônomo, facultando o reencontro com seu mestre legítimo, o Fantástico Oitocentista, pois, na narrativa fantástica, a ideologia dominante cede lugar ao que é reprimido, censurado pela sociedade (BESSIÈRE, 2001, p.100-101). Tratam-se, mesmo, de passeios pela ficção do insólito, que permeiam as múltiplas vertentes da literatura fantástica, desde suas antecessoras até suas sucedâneas.



1. Contextualização

Se é verdade que no século XVIII notamos o predomínio das ideias dos filósofos das Luzes, baseadas na razão, no progresso e na felicidade do homem – em oposição às tevras do fanatismo e ao arcaísmo na política e nas ciências –, também é verdade que este contexto ideológico está longe de ser coerente e homogêneo. Por um lado, convém levarmos em conta os escritores que se situam à margem dos grandes debates político-filosóficos; por outro, nos meios populares, predomina ainda a oralidade sobre a literatura impressa. É por este viés que se mantêm vivas as práticas ancestrais e as superstições, apesar de serem ambas combatidas, tanto pela Igreja quanto pelos filósofos que desfrutavam, naquela época, de relativa popularidade. Nesse século marcado pela contradição, Reinhart Koselleck (1979) nos mostra um dos seus paradoxos de fundo: é na própria destruição da razão do Estado que se dá o nascimento do espírito das Luzes. De fato, estas só puderam acontecer graças à forma absolutista de governo, que pôde dar um termo às Guerras de Religião. Paralelamente, os filósofos da Ilustração tinham, contudo, que trabalhar para derrubar essa mesma monarquia que havia construído um campo de ação racional determinado pelo Estado e pela política para combater a desordem provocada pelos conflitos religiosos. E era justamente por isso que ela tinha sido obrigada, ao mesmo tempo, a neutralizar qualquer instituição autônoma, já que "a responsabilidade absoluta do soberano reclama e supõe a dominação absoluta" e é somente quando todos os súditos estão "igualmente submetidos ao soberano, que este pode assumir sozinho a responsabilidade pela paz e pela ordem" (KOSELLECK, 1979, p. 16). Ora, no momento em que a moral do Bem e do Mal significa também a escolha entre a Paz e a Guerra, instala-se, consequentemente, o paradoxo fundamental que atravessa todo o século XVIII, e o mesmo que se acha na base do movimento romântico que se seguirá, pois "a consciência não pode unir-se às condições do tempo". A ruptura entre o interior e o exterior torna-se, então, inevitável e "o sábio vê-se obrigado a refugiar-se no segredo de seu coração" (KOSELLECK, 1979, p. 17). Isento de qualquer responsabilidade política – já que esta se encontra, agora, em sua quase totalidade, na esfera do Estado –, cabe ao sujeito refugiar-se na interioridade de seu anonimato, rompendo assim a relação culpabilidade-responsabilidade, constitutiva da consciência (KOSELLECK, 1979, p. 17). Todo o século XVIII será dominado por esse paradoxo, pois a forma alternativa entre a moral do Bem e a do Mal passa a significar a escolha entre a paz e a guerra, entre a ordem e a desordem. Por conseguinte, é a tentativa de conciliação entre o homem e o cidadão que provocará a desagregação do Estado absolutista, da mesma forma que a moral "esclarecida" buscará restabelecer a diferença entre o interior e o exterior. O empreendimento parece-nos muito bem ilustrado no Artigo "Crítica", da Enciclopédia. 

 Um verdadeiro crítico deve considerar não apenas cada homem em particular, mas também cada república como cidadã da terra (...). Daí, o direito privado e o direito público, que foram distinguidos apenas pela ambição, e que são, ambos, simplesmente o direito natural mais ou menos estendido, mas submetido aos mesmos princípios.

Assim, caberia ao crítico julgar não somente cada homem em particular de acordo com os costumes de seu século e as leis de seu país, mas também as leis e os costumes de todos os países e de todos os séculos, conforme os princípios invariáveis da igualdade natural.

O que podemos depreender então é que, não somente a moral passa a submeter-se à política, como esta ordem política transforma as nações européias em um só bloco sem fronteiras, regido por essas mesmas leis. Desta forma, a política, considerada a partir da ótica da consciência "esclarecida", abre-se também para o progresso moral. Ora, aquilo que parece caracterizar a revolução moderna é sua incapacidade para se sustentar nos princípios sobre os quais ela encontra seu fundamento. Neste sentido, ela se torna mais um mito da modernidade, na medida em que promove a derrocada de antigos valores morais, religiosos, políticos e sociais, mas não consegue impor o princípio de um Estado impessoal, leigo e justo, instalando aquilo que Octavio Paz denomina de um "vazio na consciência" (PAZ, 2006, p. 65). Eis o motivo pelo qual a dúvida toma conta da religião e da política, assim como todas as certezas tranquilizadoras que as ciências nos oferecem ficam também desestabilizadas. Paralelamente, a fé incondicional no progresso vê-se ameaçada pelos questionamentos quanto a seus benefícios reais. Parece-nos sintomático o tema do concurso lançado pela Academia de Dijon e publicado no Mercure de France, no ano de 1749, apresentado em forma de questão: "O progresso das ciências e das artes contribuiu para o aperfeiçoamento dos costumes?". Deste concurso, aliás, participa Rousseau, que faz assim sua estréia na carreira literária e ensaística. (CASSIRER, 1999, p. 47) Como se vê, a força da razão não parece ser suficiente para afastar as dúvidas quanto à eficácia de seu poder, já que se tem a consciência de que sempre haverá zonas de sombra que esta não conseguirá iluminar.

De fato, às classificações ordenadas das artes, das ciências e dos saberes que a Enciclopédia organiza, responde o aumento do ocultismo, do espiritualismo – ou seja, tudo aquilo que se abriga sob o rótulo de Illuminisme – e do irracional que, embora revestido de um certo "cientificismo", traduz a mesma inquietação quanto à felicidade do homem, seja no plano social, seja nas respostas às suas angústias. Por isso, Sainte-Beuve considera o século como um: "Singulier siècle où l´incrédulité, l´athéisme, aux meilleurs jours un déisme agressif, le naturalisme toujours, se promenaient en plein soleil, et où le sentiment religieux et divin, ainsi refoulé dans l´ombre, allait se prendre à des sortilèges et à des fantômes." (SAINTE-BEUVE, tomo X, 1885, p. 197)

O homem se vê invadido por estados de ânimo opostos, indo da exaltação ao desespero. Assim, dividido entre a melancolia e a euforia, o ser humano deixa de ser definido apenas por sua função social e se vê, paralelamente, como um ser único, tomado por desejos que não sabe dominar. Instala-se uma rejeição à crença no caráter transcendente e imutável dos valores morais, estéticos e políticos que regem os homens, e todas as "verdades" passam a ser relativizadas, pois elas estão agora postas sob suspeita. Embora seja o século da filosofia, da história e das ciências, os homens aspiram a uma verdade secreta que lhes traga respaldo para aquilo que desconhecem e que as verdades limitadas da ciência não conseguem satisfazer. 

Assim é que, no século XVIII, os Iluminados se aproveitam da angústia da dúvida e de medos ancestrais que resistiam às idéias das Luzes para desenvolver suas doutrinas esotéricas e a pseudo-ciência leva os parisienses para o domínio do ocultismo, que estava à margem da ciência desde a Idade Média. Como observa Robert Darnton (1995), Cagliostro é o alquimista mais célebre que Sébastien Mercier encontra em Paris, e gravuras do famoso alquimista Saint-Germain são vendidas abundantemente nas ruas da cidade. Como fino observador de seu tempo, Sébastien Mercier, em seus Tableaux de Paris, deplora o fato de que a "companhia enfatiotada dos médicos" teime em perseguir os "empíricos", e alegra-se que a curiosidade a respeito das coisas ocultas encontre eco nas pesquisas de alguns sábios e na "imaginação de alguns escritores". (MERCIER, apud CASTEX, 1951, p. 24)

No plano estético, cabe reconhecer que o racionalismo iluminista significou um elemento desencadeador do repensar crítico de toda uma tradição literária, por sua recusa das normas estéticas até então inabaláveis. Isso levou a criação artística para a busca da inovação da forma e do sentido do fazer literário, abrindo caminho para a explosão do movimento romântico, sobretudo na Alemanha e, posteriormente, na França. Ora, em meio a uma multiplicidade de experiências literárias, surge o relato fantástico que as incorpora e delas se aproveita, através de novas combinatórias narrativas que suscitam o efeito de "estranhamento", deslocando o "horizonte de expectativa" do leitor. É então nesse quadro que aparecem as primeiras manifestações de uma literatura que reivindica para si a liberdade da imaginação criadora e que esboça a tentativa de trazer para o ficcional uma dimensão da vida humana esquecida pelas imposições de um cânone predominantemente realista.[...]

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BAUMAN, Zygmunt. Sobre a verdade, a ficção e a incerteza. In: O mal-estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 142-159.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
BESSIERE, I. Le récit fantástique. Paris: Larousse, 1974.
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BORGES, J.L. et alii. Introduction à Antología de la literatura fantástica. Buenos Aires: Sudamericana, 1940.
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Um comentário :

  1. Ver Sobreira!
    Interessante explanação.

    Faço parte do Club dos novos autores e sigo seu blog.
    Desejo um bom final de semana!
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com/

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