Romance Policial

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Os romances policiais são construídos de forma que em se possa chegar a uma conclusão a partir de eventos lógicos e precisos. O leitor é uma peça fundamental  na busca desta solução, porque graças a sua cumplicidade com a história ali abordada, é possível se mover até o desfecho. A leitura é sustentada pela curiosidade deste leitor, que não deve ser satisfeita no primeiro momento e sim aguçada. É preciso uma situação, uma ocorrência premeditada ou não para desencadear um mistério, ou seja, um assassinato, um roubo, é o enigma a ser desvendado. O que nos remete a afirmação de Sandra Lúcia Reimão (1983) o enigma atua, então, como desencadeante da narrativa, e a busca de sua solução, a elucidação, o explicar o enigma, o transformar o enigma em um não-enigma é o motor que impulsiona e mantém a narrativa.(p.11)

A história policial se forma, de entre outras causas, como consequência de uma realidade histórica, com  o surgimento das grandes cidades, junto com a busca  por justiça faz-se necessário a organização das forças policiais, que se instauraram sistematicamente no século XIX. Este cenário foi o que principalmente impulsionou o nascimento deste estilo, e Edgar Allan Poe é dado como o grande criador do gênero.
Enquanto na França, Inglaterra e nos Estados Unidos desenvolvia-se a novela de folhetins, com seus policiais, ex-condenados com métodos totalmente empíricos de investigação, em abril de 1841, um americano educado na Europa, com textos já anteriormente publicados, lança, na Graham's Magazine, aquela que é considerada a primeira narrativa policial, a fundadora do gênero: "Assassinato na Rua Morgue" (Reimão, pg18)
Aparecendo então Dupin e posteriormente figuras como o detetive Sherlock Holmes, Hercule Poirot, entre outros. Dupin, bem como os detetives posteriores do estilo romance de enigma não participam da força policial, e normalmente investigam por hobby. 


No Brasil, pode-se dizer que o primeiro romance policial foi O Mistério, uma espécie de paródia do próprio gênero. Escrito por Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Correa e publicado em capítulos no jornal A Folha em 1920. Mas o grande destaque da literatura policial nacional é a obra de Rubem Fonseca. A vivência profissional do escritor como comissário de polícia no Rio de Janeiro nos anos 1950 inspirou muitos de seus livros.Com a evolução do gênero já observamos que os personagens foram se modificando e os estilos também, surgido assim no papel do detetive outros tipos. Continuam em cena os clássicos, e a eles se somam advogados, agentes federais, médicos-legistas entre outros.

Segundo Todorov (2003) o romance policial tem suas normas; fazer " melhor " do que elas exigem é ao mesmo tempo fazer pior: quem quiser "embelezar" o romance policial , faz "literatura" e não romance policial. Partindo dessa premissa de Todorov devemos supor que o romance policial como gênero, tem características muito diferenciadas dos outros gêneros. Há uma espécie de jogo de inteligência entre o autor e o leitor; o autor tenta medir a lealdade do leitor para com sua narrativa, e o leitor tem como objetivo principal, além de entreter-se esclarecer um mistério.

O gênero é constituído por dicotomias, a história do crime e a história da investigação, o detetive e o criminoso, o assassino e sua vítima, etc; o enredo tem um alto  nível  de criatividade e propõe ao leitor uma série de padrões como: repetições, duplicidades, inversões, oposições que vão aparecendo ao longo da narrativa e serão de grande valia para a elucidação do crime ao final do relato; a enunciação  quase sempre é do ponto de vista do próprio detetive. Curiosamente apesar de pertencer a tipologia narrativa, este gênero também permite a inserção da tipologia descritiva. 

Há um leque de narrativas policiais que podemos citar como exemplo, são elas:  no romance de enigma ou policial clássico há vários suspeitos para um crime, seja ele roubo, assassinato, etc., a identidade do culpado só é revelada nas últimas páginas do livro, ou seja, são as narrativas clássicas,ou romance de enigmas, como os intitulam Todorov. Neste gênero destacam-se Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Edgar Allan Poe, sendo este último o inaugurador deste gênero. No Brasil, um escritor de destaque nesta narrativa é Luiz Alfredo Garcia Roza; Noir, preto em francês, normalmente fundem duas histórias em uma. É o tipo de romance policial onde os personagens são mais humanizados, os detetives nesse tipo de história, costumam beber, brigar, se envolver em romances passionais e há inserção de cunho sexual. Não há um mistério propriamente dito para ser investigado como nos romances de enigma, existem outras tramas paralelas, a história portanto não gira em torno de apenas um fato, mas vários. Um dos mais conhecidos autores deste tipo de romance policial é Raymond Chandler. No Brasil podemos destacar Toni Belloto; thriller jurídicos protagonizados por advogados, promotores, policiais entre outros envolvidos não só em investigar, como também em provar a inocência ou a culpa de algum personagem que contrata seus serviços, esses livros também mantém mistério em todo o seu enredo e a solução do mistério só é revelada perante o juiz. Erle Stanley Gardner criador do advogado Perry Mason e do delegado Doug Selby é um dos mais conhecidos autores da categoria, também tendo grande influência o autor John Grisham. O escritor brasileiro Mário Prata escreve romances policiais deste gênero; thriller médico protagonizados por médicos, que usam seus conhecimentos para combater doenças e epidemias, erros médicos, etc. além de descobrirem circunstâncias e causas de morte através de análises médicas. Patricia Cornwell, criadora da médica-legista Kay Scarpetta é uma das mais conhecidas autoras dessa categoria; espionagem geralmente envolvendo investigações de grandes criminosos internacionais, mafiosos, crimes diplomáticos, etc. Num estilo muito próximo deste, temos no Brasil o escritor Pedro Bandeira, que criou a série os Karas.

Com relação aos vários estilos de narrativa policial e também seus vários autores, vale ressaltar que, existem outros estilos e outros autores não citados aqui no momento, porém é impossível não citar Rubem Fonseca, considerado um dos maiores ficcionistas da literatura brasileira contemporânea. Dotado de um estilo próprio, as obras deste autor geralmente retratam, em estilo direto, a luxúria e a violência urbana, em um mundo onde marginais, assassinos, prostitutas são personagens que conduzem a cena. Rubem Fonseca se utiliza dos recursos da linguagem cinematográfica para construir seus "enigmas" e personagens. Diante disso, podemos dizer que ele não se "enquadra" em nenhum dos exemplos  expostos acima. 
O primeiro obstáculo encontrado por qualquer analista que se proponha a estudar a obra literária de Fonseca consiste tanto na opulência quanto na variedade de seus livros. Nesse sentido, com uma imagem do próprio autor, pode-se comparar sua obra a um labirinto diante do qual as dificuldades começam já na necessidade de se encontrar uma entrada. Godoy, 2009, p.8
Os romances policiais podem apresentar diversos elementos dentre eles podemos encontrar: um enigma que parece inexplicável, ou seja, um mistério que será resolvido mediante um complicado e preciso trabalho de inteligência; um detetive aficionado o intelectual; uma metodologia baseada em deduções, que possibilitará desvendar o enigma a partir de  pistas, indícios e indagações; uma técnica narrativa que consiste em manter o segredo até o momento final da narrativa. Também pode-se dizer que são marcas fundamentais destas narrativas a casualidade, por se apresentar em histórias inusitadas e a inquietude que não permite que leitor fique estático diante das situações que ocorrem; geralmente os temas expostos envolvem ambição, culpa, traição, vingança, extorsões, fugas, entre outros elementos; os personagens nos remetem sempre a uma perspectiva de antíteses: bem contra o mal; de um lado temos o policial, o detetive, o inspetor e do outro o assassino, o espião que atua em pé de igualdade, se estabelecendo um jogo de inteligência e por ele é o interesse do leitor.

Atualmente nos romances policiais, o detetive quase sempre trabalha sozinho, porém a  base continua  mesma, o recorte científico da investigação permanece. Os gêneros de espionagem e conspiração são os mais  lidos hoje em dia; a tecnologia é uma arma poderosa  nas mãos deste detetive; a disposição para solução do crime é igual a do melhor detetive da era "clássica" desta narrativa, só que tal detetive tornou-se high tech. Outra novidade contemporânea é a figura feminina, em recentes publicações literárias podemos ver à mulher  conduzido uma investigação de forma tão sagaz quanto o homem. Cito como exemplo: A detetive Eve Dallas - Série Mortal da escritora estadunidense Nora Roberts, ela tem como assistente direta uma mulher, a policial Delia Peabody. Esta série é ambientada em uma Nova York futurista, próximo mais ou menos ao ano de 2059. A escritora reuniu elementos de detetives clássicos como por exemplo Dupin, de Edgar Alan Poe, a única diferença é que esta detetive faz parte da polícia de Nova York. Eve Dallas mistura a veia de "policial durona", com a de uma mente inteligente  e que se atem a pequenos detalhes que são sempre maximizados pela investigação científica.

Com isso é possível observar  este gênero sempre se renova, mas se  utiliza da mesma base, das mesmas características que o tornaram tão famoso e atraente.Vale observar, que a inserção deste gênero na literatura infanto-juvenil, responde a uma necessidade de ação por parte das crianças e dos adolescentes, pois tal gênero, bem com o de aventura permite que eles se evadam da realidade circundante, em um jogo de imaginação onde não há necessidade do predomínio da razão.


Referências Bibliográficas
REIMÃO, Sandra Lúcia. O que é Romance Policial. Coleção  Primeiros Passos. Ed: Brasiliense. 1983
TODOROV, Tzvetan. Tipologia da novela policial In: Poética da prosa. Tradução Claudia Berliner. SP: Martins Fontes: 2003. p: 54-64
GODOY, Abílio Marcondes de. Negatividade, fatalidade e aporia: Uma visão trágica do mundo nos contos de Rubem Fonseca. Biblioteca Virtual  - FAPESP.2009 em :
GOMES, Gilda Maria das Graças. Mistério e suspense na narrativa policial de Marcos Rey. [manuscrito] / Gilda Maria das Graças Gomes. – Juiz de Fora:
Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, 2007.83p.
FREITAS,  Adriana. Romance Policial: Origens e Experiências Contemporâneas


Nenhum comentário :

Postar um comentário

A Tribo Participa

Get your own free Blogoversary button!

PUBLICIDADE


Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina.


Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina.

Tribo Apoia

Top Comentaristas

Widget by: Code Box

Clique