O Estrangeiro e O homem que não estava lá

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Estrangeiro
Albert Camus
O Homem que não estava lá
Joel e Ethan Cohen
A narrativa de "O Estrangeiro" é carregada de existencialismo, principalmente o defendido por Sartre: "nossas escolhas são direcionadas por aquilo que nos aparenta ser o bem, os valores morais não são limites para liberdade"[1]; está presente de forma explícita e é o que nos faz refletir sobre os absurdos e as verdades absolutas instituídas pela sociedade, ou seja, o que é esperado de nós tem que ser feito da forma planejada, quando fugimos deste planejamento instala-se uma espécie de caos.

Numa referência inusitada os célebres irmãos Cohen,adaptaram o livro de Camus para a tela grande, e o filme é "O homem que não estava lá" . Percebemos claramente em Ed Crane, o personagem central, M. Meursault. Como no livro de Camus, o filme dos irmãos Cohen é atravessado pelo conceito de existencialismo de Sartre. Camus não nos coloca precisamente uma data, já os irmãos Cohen ambientaram sua narrativa no ano de 1949, nos arredores de Santa rosa, Califórnia. Para se aproximar do clima desta época filmaram em preto-e-branco, estilo noir. Este tipo de filme tem sempre uma moral, porém ambígua e relativa. Estas pequenas diferenças não são relevantes ao compararmos as duas obras, pois ambas estão focalizadas nos mesmos princípios.

O filme foi lançado em 2001 no começo de um novo século, mas tanto o livro quanto o filme nos fazem perceber que não houve mudanças, que valores de uma época passada são os mesmos valores do homem moderno. Talvez os irmãos Cohen tenham ambientado a narrativa de seu filme em 1949 justamente para captar o mesmo clima da época em que o livro foi escrito. Quanto mais o homem se lança na busca de explicações e satisfações na vida a fim de obter informações que permitam a ele uma identidade, mais ele caminha para o niilismo com consequências indesejáveis. Observar Meursault e Ed Crane é vê-los como espelho um do outro, pois ambos levam uma vida vazia e banal. A vida de Meursault é atravessada por seu relacionamento com Marie e a de Ed por seu casamento com Doris. 

Meursault narra acontecimentos como: o enterro de sua mãe, seu relacionamento com Maria e seus vizinhos e até mesmo o assassinato que ele comete na metade do livro de forma despreocupada e indiferente, sem demonstrar nem paixão, nem dor. A natureza do seu relacionamento com sua mãe e sua forma de agir durante o enterro dela e depois dele, é a principal causa do estranhamento, repúdio e do seu verdadeiro julgamento mais à frente.

Ed, que narra em over sua história, é um barbeiro do subúrbio, casado com Dóris, uma contadora que tem problemas com bebida. Ed começa narrando seu casamento e como foi parar no ramo da barbearia. Seu colega de trabalho e cunhado Frank é dono da barbearia e fala incessantemente. Ele descobre, e como ele mesmo diz simplesmente ele sabe, que Doris mantém um caso com Dave, o chefe dela. Ed vê a possibilidade de mudar seu modo de vida depois de conhecer Creighton Tolliver, na barbearia onde trabalha. Este sujeito diz ter um investimento de lucro garantido, mas precisa de 10 mil dólares para começá-lo. Ed consegue o dinheiro chantageando anonimamente Dave, este descobre que foi Ed quem o chantageou e tenta matá-lo. Ao tentar se defender da investida dele, Ed o mata com uma faca. Como Meursault, Ed é taciturno, incapaz de demonstrar emoções, fala pouco com as pessoas ao seu redor e suas reações raramente ultrapassam alguns gestos sutis.

Há no filme uma reversão de situações, mas que nem por isso deixa de seguir a mesma linha do livro de Camus. Meursault matou o árabe com cinco tiros, Ed mata o amante de sua esposa com uma espécie de faca para cortar charutos, o que é muito interessante. Ao invés de ir preso como Meursault, é sua esposa quem é presa em seu lugar. Podemos dizer que tanto no filme, quanto no livro duas afirmações são confirmadas: "A mediocridade da existência conduz ao crime" e "O protagonista está sempre a mercê dos caprichos do destino."[2] quando não se consegue reprimir sentimentos ou a falta deles, surgem os problemas. Estas afirmações estão perfeitamente calcadas no estado emocional dos dois personagens que são frios, reflexivos e distantes. Devido aos seus comportamentos Ed e Meursault são lançados a situações que fogem do controle e ambos não podem fazer nada para evitá-las.

O segundo momento do livro é dedicado ao tempo de Meursault na prisão e seu consequente julgamento. Neste momento o personagem começa a se dar conta do que está ocorrendo a sua volta e parece vir à tona alguns sentimentos, pois ele sente falta dos momentos passados com Maria, pensa na sua liberdade. Porém, no decorrer de seu julgamento, ele percebe o quanto é inútil se render a este tipo de sentimento, que é uma perda de tempo. Já Ed antes do julgamento da esposa e diante dela e do advogado confessa que foi ele quem matou Dave, porque sabia do caso deles. O interessante é que esta cena foi filmada com a luz do sol refletida sobre os personagens Ed e Doris, o que nos faz lembrar sobre o que Meursault diz ao tentar justificar porque matou o árabe, de que a culpa foi do sol. É como se o sol transparecesse o verdadeiro caráter dos personagens. Após esta cena segue o dia do julgamento de Doris, na hora do julgamento descobre-se que ela se suicidou.

A indiferença, e o estranhamento que ela provoca nas pessoas é uma constante no livro de Camus. Esta mesma indiferença está presente no filme dos irmãos Cohen, pois Ed não demonstra nenhum arrependimento ou sofrimento pelo suicídio de Doris, fato que ele mesmo constata. Como Meursault, Ed é levado pelos acontecimentos e não se importa com o mundo a sua volta. Nada parece "os afetar" diretamente, como com certeza afetaria a maioria das pessoas que estão sempre na expectativa de corresponder ao outro.

Para finalizar retomamos o que já foi dito sobre que o protagonista estar à mercê do destino. Como uma espécie de ironia, após sofrer um acidente Ed é informado que será preso pelo assassinato de Tolliver. O mais curioso é que tanto o processo de investigação do caso de Ed e como no de Meursault, a história não interessa. O mais importante é puni-los rigorosamente pelo que eles são, mas que não deveriam ser. Ed, como Meursault, não se defende, pois acredita que está pagando pelo que fez e também como Meursault acompanha todo seu julgamento como se estivesse num palco. Ao final, já à espera da morte que está por vir, Ed sente-se livre pela primeira vez na vida, exatamente como Meursault.

As duas obras ao serem narradas em primeira pessoa nos levam a uma visão de mundo onde a característica principal é "o absurdo de existir". Ed e Meursault não são necessariamente vilões, e sim homens que não seguem ideias. Eles se mostram descrentes e indiferentes aos valores da sociedade em que vivem. Para eles a própria vida é desprovida de sentido.
__________
[1] O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica - Jean Paul Sartre_acessado em 2009.10.30
[2] http://peliculaqueimada.blogspot.com – acessado em 2009-11-01

Para bibliografica
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. (L’Étranger). Trad. de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2009

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