O Estrangeiro - Albert Camus

sábado, 15 de outubro de 2011

Esse texto é uma análise, faz parte da seção Seguindo a trilha e pode conter spoilers.
Hoje mamãe morreu, Ou talvez tenha sido ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O Estrangeiro, de Albert Camus, já em seu primeiro parágrafo prenuncia o crime pelo qual seu personagem principal será julgado e pelo qual pagará com sua vida.

Meursault leva a vida de uma maneira simples, sem planos, sem decisões sem sentimentos extravagantes, procura manter-se num estado de equilíbrio que o proteja dos incômodos de sua existência. Segue as regras da sociedade, aparentando até ser um cidadão comum, respeita os horários, trabalha, vai ao enterro de sua mãe, mas, como de acordo com o próprio Albert Camus, ele não se submete ao jogo, vive apartado do que seria considerado um cotidiano normal.

È um homem totalmente levado por suas experiências sensoriais e despreza sentimentos tão valorizados pela sociedade como o amor e a amizade, nesse sentido Meursault se distancia de todos os demais, pois não tem sonhos, apenas vive porque está vivo, uma prova disso são as referências tão constantes à luz, ao sol e a frase que se repete inúmeras vezes na obra: tanto faz.

Porém não se pode dizer que Meursault é completamente destituído de sentimentos, ele apenas sente diferente dos outros. Ele não ama Marie da maneira convencional, mas na passagem: Queria, no entanto, que ela ficasse comigo, e disse-lhe que poderíamos jantar juntos no Céleste (Camus, 2009, p.46), podemos observar que há um certo sentimento que ele dedica à namorada, pois desejava a sua presença.

Quanto a mim, nada disse, não esbocei gesto algum, mas foi a primeira vez na minha vida que tive vontade de beijar um homem(Camus, 2009, p. 97), Nesta outra passagem podemos observar que há também certa ternura naquilo que sente por Céleste, ainda que não seja o sentimento de amizade, ele de alguma maneira é tocado pelo depoimento prestado em seu favor.

Na verdade o problema de Meursault não era sua maneira diferente de sentir a vida e seu desprezo pelos sentimentos mais exaltados pela sociedade, seu problema era não esconder isso, como o próprio Camus afirmou, sua incapacidade de mentir. Meursault não fingia sentir o que não sentia nem mesmo para ser bem visto pela sociedade, se recusa a simplificar a vida como todos fazem e é justamente isso que o condena a sentença de morte.

Quando Meursault mata o árabe na praia há uma suspensão do equilíbrio estabelecido em sua vida.
Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente,a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. (...) Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o revólver.(...) e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia,o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso.E era como se batesse quatro breves pancadas à porta da desgraça.(Camus 2009, p.63)
Suas experiências sensoriais que a princípio o protegiam, nesse momento o condenam e interrompem um momento que até então era feliz. Meursault mata o árabe sem motivo algum, sua própria camada de proteção o impedia de ter motivos para matar qualquer pessoa, o que o impulsiona é justamente o sol, o suor, tudo aquilo que sentia naquele instante. Nesse momento o romance sofre uma virada e começa a segunda parte, que é a saída do personagem de sua capa de proteção.

Meursault é preso e julgado. A seu julgamento são chamadas sete pessoas das quais apenas duas depõem contra ele e baseados em sua conduta durante o enterro da mãe e não em sua culpa ou inocência do crime que cometeu. Na verdade sobre o crime pouco é falado, o que é posto em questão a todo tempo é: “Por que Meursault não chorou no enterro de sua mãe”.

Matar um árabe para aquelas pessoas era quase irrelevante, o imperdoável era não chorar no enterro da própria mãe. Não tinha grande importância o que o personagem tinha feito, o que realmente importava era o fato de não ter demonstrado publicamente ou ter fingido um afeto à própria mãe no dia de seu enterro. Meursault não jogava o jogo não mentia e por isso foi condenado.

Aí chegamos a uma questão, o que é mais estranho? Um homem que não consegue fingir, ou uma sociedade inteira que em vez de julgar o assassinato que um homem cometeu julga o afeto deste por sua mãe e sua capacidade de mostrá-lo?

Não se busca aqui eximir a Meursault da culpa, ele matou e devia ser punido por seu ato. Mas o que choca é a pouca importância que a sociedade que julga a um homem como Meursault como estranho dar pouca importância a morte de um homem a ponto de por o amor de um criminoso por sua mãe a frente disso. Meursault foi julgado pelo crime errado.

Quando questionado se arrependia-se de haver matado o árabe, respondeu: Meditei e disse que, mais do que verdadeiro arrependimento, sentia um certo tédio. Havia muito mais uma preocupação com o que Meursault sentia do que com o que realmente fez. E qual é a importância disso? Arrependido ou não, era culpado.

Mas, talvez se Meursault houvesse chorado no enterro de sua mãe e confessado arrependimento, se fosse capaz de mentir e sentir mais do que aquilo que sente, tivesse escapado da sentença e vivido feliz para sempre, ou pelo menos aparentando isso.

Referências Bibliográficas
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. (L’Étranger). Trad. de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Um comentário :

  1. Muito boa a analise, a reflexão que nos trás e exatamente, de uma consciência desprovida de influências de Ideologia e cultura preexistente, que sem perceber deixamos entrar e agimos maquinalmente.E é realmente existencial ao extremo. Coloca em pauta o acaso,o erro da compreensão, que é interpretações múltiplas e também insatisfação das regras da sociedade.Realmente a visão nua e crua da realidade.

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