América Latina, Carnaval e Antropofagia: Teorias Alternativas à Perspectiva Eurocêntrica

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O caráter periférico da modernidade latino-americana ou a consciência dilacerada de nosso subdesenvolvimento, segundo Antônio Cândido[1], será posto em evidência especialmente durante as décadas de 20 e 30; anos marcados por uma forte crítica à sociedade e aos valores burgueses, traduzida pela arte de vanguarda sob a forma da ruptura, fragmentação e o horror a qualquer tipo de síntese, características de uma nova estética.

Uma estética eminentemente urbana, oriunda de sociedades cujo desenvolvimento tecnológico e industrial, ao invés de atenuar, acentuou as contradições e os conflitos existentes entre as diferentes classes sociais. Dentro de um contexto protagonizado por relações de opressão, a utopia marxista acena para a possibilidade de uma nova sociedade, mais justa e igualitária, enquanto a teoria psicanalítica de Freud, nos desvenda um mundo desconhecido, povoado por sonhos e por desejos reprimidos, um lado obscuro, que é "outro", mas que também é parte de nós mesmos, e que como tal devemos libertar.

Idéias que atravessarão as fronteiras européias e chegarão até as Américas, onde um grupo de intelectuais desejosos de "acertar o relógio" de suas culturas com a modernidade e a nova estética de vanguarda logo perceberá que as diferenças vão muito além de fuso horário, remetendo-o aos séculos de colonização e catequese.

De fato, o contexto que separa a vanguarda européia da vanguarda latino-americana daqueles anos, incluindo aí o Caribe, equivale à distância que separa o colonizador do colonizado, uma distância que mais do que geográfica, é política, econômica, cultural, e acima de tudo, histórica. Assim, se por um lado foi a São Paulo capital financeira do país, em franco processo de industrialização e urbanização, que permitiu o surgimento de uma intelligentsia que desejava dialogar com as vanguardas européias de então, por outro, será a sustentação ainda agrária (a economia cafeeira) do impulso modernizador desta cidade, que evidenciará e representará a convivência conflituosa entre o moderno e o arcaico, uma marca das modernidades periféricas. 

Neste sentido, a consciência de que a defasagem cultural entre a América e a Europa é sobretudo de ordem histórica, levará os intelectuais latino-americanos a reencontrar-se com um constructo eminentemente colonial, um dos primeiros neologismos criados durante a expansão européia no Novo Mundo[2], o tropo do canibal. Retornar a este constructo foi reavaliar a origem ocidental destas culturas e ao mesmo tempo responder a uma angústia vital impressa na frase oswaldiana "Tupi or not tupi that is the question"[3] .
  
A partir de então, os modernistas brasileiros se dedicarão, tanto intelectualmente quanto a nível estético, ao desafio de ressemantizar a palavra "canibal". Anagrama de "caribe", canibal foi a palavra que Cristóvão Colombo usou para traduzir os índios antropófagos, acrescentando-lhe a conotação pejorativa de monstro, besta, de bárbaro. Oswald de Andrade e seu grupo retraduzirão esta mesma palavra num processo de seleção que será característico da estética modernista. Assim, nesta ressignificação, conservarão o sentido violento do antropófago, que come, digere, esquarteja, destrói, e desprezando a conotação de inferior implícita na acepção de bárbaro, a substituirão por moderno, superior. Um antropófago tecnicizado, que devora o "outro", mas seletivamente, ou seja, um bárbaro que sabe o que devora, e que ao mesmo tempo que digere, traduz. 

"ABAPORU": A ANTROPOFAGIA COMO FIGURA MELANCÓLICA

A conhecida relação entre a antropofagia modernista e a melancolia surgiu a partir da observação da pintura Abaporu (1928) de Tarcila do Amaral, cujo título em tupi-guarani significa antropófago (aba=homem + poru= que come), marcando assim a conclusão da fase Pau-Brasil e o início da Antropofagia em Oswald. Ao compará-la com a gravura de Albrecht Dürer, Melancolia I (1514), uma das referências mais tradicionais à postura melancólica, verificamos que também na obra de Tarsila, um homem apóia a cabeça sobre a mão esquerda, direcionando melancolicamente o olhar para um horizonte indefinido. No entanto, a figura transcendente do anjo em Dürer é substituída por Tarcila pela imagem imanente do antropófago, cujas mãos e pés, instrumentos do trabalho artesanal e ícone de uma estreita relação com a terra, se destacam sobre o tamanho minúsculo da cabeça, indicando uma orientação surrealista, contrária ao pensamento racional e a preferência pelo jogo lúdico, reino da imaginação, da intuição, das artes. 

A forma alongada do antropófago de Tarcila é uma prolongação do cactos que aparece à sua esquerda, planta característica de regiões secas como o sertão do Brasil, mais tarde redescoberto pelo Cinema Novo. No entanto, apesar de longos períodos sem chuvas, essa vegetação permanece verde e vigorosa. Assim, este homem, tal como o cactos, acaba por adaptar-se a um ambiente árido, inóspito, sem deixar, contudo, de digerir o que ele tem de melhor, como o brilho e a luz do sol, conservando a vida sob o verde, o azul e o amarelo.

Ao traçar o persurso histórico em torno do tema da melancolia, Susana Lages[4]  esclarece que ele encontra-se vinculado a duas questões fundamentais: "à questão da relação entre texto (e autor) presente e textos (e autores) do passado, ou seja, a relação de um autor com a tradição", e à questão da autoridade do texto escrito, diretamente vinculada à identidade do sujeito que escreve. Neste trabalho, gostaríamos de partir destas premissas para analisar dois aspectos da antropofagia oswaldiana: a metáfora do canibalismo e a carnavalização.

Quanto ao vínculo entre a metáfora do canibalismo e o tema da melancolia, observamos sua estreita relação com a primeira questão acima apontada. Ou seja, a forma pela qual o autor estabelece diálogo com a tradição, que no caso dos modernistas, refere-se à postura destes diante do cânone ocidental, mais especificamente diante dos autores e textos da vanguarda européia.

Por outro lado, esta questão encontra-se imbricada na segunda, a partir do momento que a relação com a tradição não pode separar-se da busca de um lugar legítimo de enunciação por parte do intelectual nacional. Neste sentido, algumas perguntas se impõem: como textos originários de países periféricos podem conquistar autoridade sem citar os textos e os autores canônicos do mundo europeu e norte-americano? Como citá-los sem arriscar-se a perder a própria identidade?

Um dos  aspectos característico de estados melancólicos é o temor de ser apropriado pelo texto alheio, de ser engolido e confundido com este "outro"[5] ; um medo que certamente se acentua quando nos referimos a culturas pós-coloniais, e que também seguramente se expressa, na versão psicanalítica, como o "retorno do reprimido". Retorna uma história que foi recalcada, cujos destroços foram relegados ao esquecimento, e que como fantasmas causam um profundo estranhamento (o unheimlich[6]  freudiano) de si e do outro.

Assim, somente uma reação violenta como a da antropofagia pode dar conta do duplo processo de deglutição que se faz necessário, por meio do qual o "estranho", este "eu" que aparece sob a forma de um objeto perdido, o índio tupi-guarani, e este "outro" também perdido, o colonizador europeu, pode ser reconhecido como algo próprio e ao mesmo tempo alheio. 

Um outro lado da melancolia modernista diz respeito às perdas impostas pela chegada da civilização, um sentimento de insatisfação diante de uma modernidade opressora, que se expressará na idéia da Revolução Caraíba[7] . Somente esta poderia tornar concreta a utopia antropofágica, restabelecendo o matriarcado de Pindorama e o retorno a uma perdida Idade de Ouro, influências das teorias de Bachofen e da étno-psicologia de Lucien Lévy-Bruhl[8] . Assim, o irracionalismo e a rebeldia impressos na imagem do canibal funciona também como uma espécie de choque diante da tradição burguesa, especialmente da moral cristã avessa a tudo o que se refira à sexualidade.

Segundo Juáregui[9] , sexo e estômago constituem o inconsciente antropofágico em oposição ao consciente repressivo da lei patriarcal, baseado na restrição sexual, na monogamia e na propriedade. O fundamento da utopia antropofágica é a "visão dionisíaca da sociedade, anterior às proibições inaugurais da civilização e ao complexo de Édipo"[10] . Assim, em A psicologia antropofágica, Oswald afirma: "o maior dos absurdos é por exemplo, chamar de inconsciente a parte mais iluminada pela consciência do homem: o sexo e o estômago"[11] .

Como vemos, o corpo antropofágico, como nas análises de Bakhtin sobre Rabelais e o carnaval[12] , inaugura uma nova relação entre o homem e o mundo, que substitui o desejo de poder pelo de possessão prazerosa, que comemora em festa o estabelecimento da sociedade lúdica, tão aclamada por Oswald no Manifesto Antropofágico: "Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitências do matriarcado de Pindorama"[13] .

Além disso, em seu estudo, Susana Lages[14]  destaca a ambivalência da melancolia num texto atribuído a Aristóteles, segundo o qual existe uma conexão entre o humor melancólico e uma espécie de caráter "aéreo", pneumático (do grego pneuma), ligado não só à elevação espiritual, mas também a dimensões mais 'baixas', como a flatulência, uma suposta emissão de ar no ato sexual, e ao consumo excessivo de vinho que contém em sua espuma (do grego afros), ar. A mesma ambivalência que encontramos na melancolia antropofágica, que por meio de um ato puramente instintivo, o devorar, deseja alcançar a mesma autoridade deste "outro", conquistando assim uma posição hierárquica igual ou mesmo superior a dele(...).

Profa. Dra. Ana Cristina dos Santos
Professora adjunta de Neolatinas da UERJ

Professora adjunta de Neolatinas da UERJ

__________
[1] CÂNDIDO, Antônio. Literatura e subdesenvolvimento. In: FERNÁNDEZ MORENO, César (coord.) América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva, 1979, p. 343-362.
[2] JUÁREGUI, Carlos. Canibalia: canibalismo, calibanismo, antropofagia cultural y consumo en América Latina. La Habana: Casa de las Américas, 2005, p. 11-12.
[3] ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropofágico. In: A utopia antropofágica (Obras completas). São Paulo: Globo/Secretaria de Estado da Cultura, 1990, p. 47.
[4] LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin: tradução e melancolia. São Paulo: edusp, 2002, p. 37.
[5] Ibidem, p. 35-6.
[6] FREUD, Sigmund. O estranho. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, s.d.
[7] ANDRADE, O. Op. Cit. p. 48.
[8] Filósofo muito lido e citado pelos surrealistas que defendia a inteligência pré-lógica do pensamento selvagem.
[9] Ibidem, p. 612.
[10] Ibidem, p. 611. A tradução é nossa.
[11] JÁUREGUI, C. Apud, p. 612.
[12] BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Trad. De Yara Frateschi Vieira. São Paulo/Brasília: Hucitec/Edunb, 1999.
[13] ANDRADE, O. Op. Cit. p. 52.
[14] LAGES, S. Op. Cit. p. 49.

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